Hoje todo mundo é um bom escritor, talvez porque os leitores sejam tão desinteressados quanto esta grande maioria que expressam suas idéias desordenadamente, seja com críticas, frases de efeito, um senso de humor absurdo, são quase sempre frases soltas jogadas no texto. É como a prática de quem não escolhe o feijão, prefere jogar tudo na panela e quem engolir a primeira pedra que se dane, o feijão já foi vendido mesmo.
Enquanto estava na fila da livraria senti pena de uma boa parte de todas aquelas pessoas com um ar de iluminista decadente. Me veio uma lembrança da minha infância; meu irmão mais velho me ensinando como entrar em uma livraria, ele tinha por volta dos seus dez ou onze anos e dizia: –Olhe para cima, ande devagar e vá diretamente para seção que você gosta se não podem pensar que você não entende nada de livros e precisa da ajuda de alguém que selecionou os livros mais vendidos, como se eles fossem realmente os melhores. Falou isso como se entendêssemos de livros; éramos duas crianças imitando o ridículo de ser adulto, talvez tivesse razão em dizer que os escolhidos da prateleira central não fossem realmente os melhores. Então pratiquei essa idiotice até os onze anos, ainda bem que amadurecemos e não precisamos ser ou não ser para ninguém, a não ser a quem nos convém, que seja, muitas vezes ser para o outro é tão necessário para muitos, seja qual for a idade, mas isso não vem ao caso. Acontece que, um dia olhei os livros em destaque e achei alguns interessantíssimos, mas não achei nenhum bom o suficiente para o título de melhores do ano, ao menos naquele ano. Nesse dia reconheci o que meu irmão havia falado, mesmo que ele não tenha tido noção da realidade do que falou ou até mesmo os que julgava, serem melhores, fossem histórias de super-heróis na seção infantil. Mas observando aquelas pessoas, todas com aquela pose de John Locke enquanto revisava Ensaio sobre o entendimento humano, pude perceber a dor e o grito de livros interessantíssimos na prateleira preta e sem graça ao lado daquela torre de livros empilhados, no centro da loja, em uma prateleira enfeitada, com um letreiro chamativo e quase todos alienados dando sorrisos de satisfação pelo novo livro mostrando a vida de mais uma celebridade fútil e morta.
Sorte daquele que escreve nos dias de hoje, sem ditaduras, regras e diplomas, afinal, pra que qualidade de conhecimento e escrita dos profissionais que nos passam a informação, se muitos desenformados não querem saber da existência de uma realidade, imagina vivê-la. Escrevo então, hoje, para cegos conformados.
Cartões criativos
Há 12 anos
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