domingo, 14 de março de 2010

Felicidade sim

A primeira vez em que parei para observá-la eram sete e quinze da manhã, fiquei pasmo com a agilidade em que ela preparava o sanduíche, ao mesmo tempo em que passava o troco para quase sete pessoas e outras ao seu lado faziam pedidos, onde ela anotava em um caderninho marrom. Por um segundo pensei que o carrinho de lanches iria virar, com todas aquelas pessoas ansiosas para sair dali e irem trabalhar, mas ela atendia a todos com satisfação, senti pena, mesmo depois percebendo o quanto estava feliz em atender a todos, talvez porque era reconhecida ou simplesmente por ter um trabalho.
Foi quando, no fim de tarde, a observei novamente e me veio uma vontade absurda de saber mais sobre aquela mulher, por alguns instantes me vinha em pensamento; o porque de toda aquela felicidade em estar atendendo a todas aquelas pessoas, como se fossem seus amigos, ou prestasse um favor a elas; alguns até a chamavam de tia e a tratavam com carinho como se esta tivesse mesmo um parentesco com eles. Passei a acompanhá-la todos os dias, ficava fitando seus movimentos; percebendo suas manias, personalidade e como seu sorriso era maravilhoso, não duvido que seus clientes a preferiam por aquele sorriso que pelos seus lanches; uma receptividade, ela era tão simpática, sabia mesmo como agradar, conhecia todos e o gosto de cada um, lembro bem quando dizia: –Já sei, já sei, sem salada e com muito queijo!
Queria de alguma forma ajudá-la, depois de todo aquele tempo em que percebi o quão maravilhosa e batalhadora era, sempre com um sorriso, incrível! Não que eu não estivesse feliz ou não sorria, mas me sentia mal por não poder ajudar, nem que fosse entregando os guardanapos. Porem, continuei observando e me apaixonava por todo aquele ritmo, uma dança de simpatia com a agitação do trabalho da cidade. Nós dividíamos a mesma sombra, mas eu ficava sentado ao lado, percebendo aquele ser simplesmente sendo e tornando-se tão preciso e importante entendê-lo. Era meu cotidiano, estar sempre ali, perto, esperto a tudo que acontecia.
Certo dia ouvi dois clientes cochichando: –Ela veio do interior do Pará, acredita? Sem marido, ninguém a ajudou vir para cá e ainda tem um filho doente, que é mudo e não mexe nenhum membro, veio parar aqui em São Paulo. Depois daquele dia, nada era impossível para mim, fiquei imaginando o quanto fez da sua vida possível; era adorada por todos, amigos a ajudava quando precisava, tinha o dinheiro garantido com o carrinho de lanches que vendia muito bem. Mas, fiquei com a idéia do filho doente, será que ela sentia-se feliz com ele? Era doloroso imaginar que o garoto atrapalhasse tudo; talvez ela fosse mais feliz e tivesse mais tempo de sair com suas amigas da vizinhança ou talvez arranjar um novo marido se não tivesse que cuidar dele.
Passei semanas sem querer observar seus sorrisos e gargalhadas enquanto passava o pão para o próximo cliente. Me vinha a idéia de que poderia ser mais livre, feliz. Mesmo quando fechava meus olhos não parava de imaginar o quanto ela merecia toda felicidade do mundo e ninguém a entendia mais que eu. Já se passavam dois anos e eu sabia tanto sobre aquela senhora, a admirava tanto e todos os dias sonhava com a felicidade sempre ao lado dela, mesmo que em silêncio, uma felicidade qualquer preciosa para que ela pudesse se alegrar além do trabalho, dos amigos e da vida que mudara desde que voltou do Pará. Foi quando ela me olhou nos olhos, enquanto arrumava o carrinho para passar mais um dia servindo as pessoas e disse: –Mais um dia para espalhar a felicidade de ser sua mãe e ter uma razão para viver!

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