terça-feira, 16 de março de 2010

Os melhores do ano

Hoje todo mundo é um bom escritor, talvez porque os leitores sejam tão desinteressados quanto esta grande maioria que expressam suas idéias desordenadamente, seja com críticas, frases de efeito, um senso de humor absurdo, são quase sempre frases soltas jogadas no texto. É como a prática de quem não escolhe o feijão, prefere jogar tudo na panela e quem engolir a primeira pedra que se dane, o feijão já foi vendido mesmo.
Enquanto estava na fila da livraria senti pena de uma boa parte de todas aquelas pessoas com um ar de iluminista decadente. Me veio uma lembrança da minha infância; meu irmão mais velho me ensinando como entrar em uma livraria, ele tinha por volta dos seus dez ou onze anos e dizia: –Olhe para cima, ande devagar e vá diretamente para seção que você gosta se não podem pensar que você não entende nada de livros e precisa da ajuda de alguém que selecionou os livros mais vendidos, como se eles fossem realmente os melhores. Falou isso como se entendêssemos de livros; éramos duas crianças imitando o ridículo de ser adulto, talvez tivesse razão em dizer que os escolhidos da prateleira central não fossem realmente os melhores. Então pratiquei essa idiotice até os onze anos, ainda bem que amadurecemos e não precisamos ser ou não ser para ninguém, a não ser a quem nos convém, que seja, muitas vezes ser para o outro é tão necessário para muitos, seja qual for a idade, mas isso não vem ao caso. Acontece que, um dia olhei os livros em destaque e achei alguns interessantíssimos, mas não achei nenhum bom o suficiente para o título de melhores do ano, ao menos naquele ano. Nesse dia reconheci o que meu irmão havia falado, mesmo que ele não tenha tido noção da realidade do que falou ou até mesmo os que julgava, serem melhores, fossem histórias de super-heróis na seção infantil. Mas observando aquelas pessoas, todas com aquela pose de John Locke enquanto revisava Ensaio sobre o entendimento humano, pude perceber a dor e o grito de livros interessantíssimos na prateleira preta e sem graça ao lado daquela torre de livros empilhados, no centro da loja, em uma prateleira enfeitada, com um letreiro chamativo e quase todos alienados dando sorrisos de satisfação pelo novo livro mostrando a vida de mais uma celebridade fútil e morta.
Sorte daquele que escreve nos dias de hoje, sem ditaduras, regras e diplomas, afinal, pra que qualidade de conhecimento e escrita dos profissionais que nos passam a informação, se muitos desenformados não querem saber da existência de uma realidade, imagina vivê-la. Escrevo então, hoje, para cegos conformados.

domingo, 14 de março de 2010

Felicidade sim

A primeira vez em que parei para observá-la eram sete e quinze da manhã, fiquei pasmo com a agilidade em que ela preparava o sanduíche, ao mesmo tempo em que passava o troco para quase sete pessoas e outras ao seu lado faziam pedidos, onde ela anotava em um caderninho marrom. Por um segundo pensei que o carrinho de lanches iria virar, com todas aquelas pessoas ansiosas para sair dali e irem trabalhar, mas ela atendia a todos com satisfação, senti pena, mesmo depois percebendo o quanto estava feliz em atender a todos, talvez porque era reconhecida ou simplesmente por ter um trabalho.
Foi quando, no fim de tarde, a observei novamente e me veio uma vontade absurda de saber mais sobre aquela mulher, por alguns instantes me vinha em pensamento; o porque de toda aquela felicidade em estar atendendo a todas aquelas pessoas, como se fossem seus amigos, ou prestasse um favor a elas; alguns até a chamavam de tia e a tratavam com carinho como se esta tivesse mesmo um parentesco com eles. Passei a acompanhá-la todos os dias, ficava fitando seus movimentos; percebendo suas manias, personalidade e como seu sorriso era maravilhoso, não duvido que seus clientes a preferiam por aquele sorriso que pelos seus lanches; uma receptividade, ela era tão simpática, sabia mesmo como agradar, conhecia todos e o gosto de cada um, lembro bem quando dizia: –Já sei, já sei, sem salada e com muito queijo!
Queria de alguma forma ajudá-la, depois de todo aquele tempo em que percebi o quão maravilhosa e batalhadora era, sempre com um sorriso, incrível! Não que eu não estivesse feliz ou não sorria, mas me sentia mal por não poder ajudar, nem que fosse entregando os guardanapos. Porem, continuei observando e me apaixonava por todo aquele ritmo, uma dança de simpatia com a agitação do trabalho da cidade. Nós dividíamos a mesma sombra, mas eu ficava sentado ao lado, percebendo aquele ser simplesmente sendo e tornando-se tão preciso e importante entendê-lo. Era meu cotidiano, estar sempre ali, perto, esperto a tudo que acontecia.
Certo dia ouvi dois clientes cochichando: –Ela veio do interior do Pará, acredita? Sem marido, ninguém a ajudou vir para cá e ainda tem um filho doente, que é mudo e não mexe nenhum membro, veio parar aqui em São Paulo. Depois daquele dia, nada era impossível para mim, fiquei imaginando o quanto fez da sua vida possível; era adorada por todos, amigos a ajudava quando precisava, tinha o dinheiro garantido com o carrinho de lanches que vendia muito bem. Mas, fiquei com a idéia do filho doente, será que ela sentia-se feliz com ele? Era doloroso imaginar que o garoto atrapalhasse tudo; talvez ela fosse mais feliz e tivesse mais tempo de sair com suas amigas da vizinhança ou talvez arranjar um novo marido se não tivesse que cuidar dele.
Passei semanas sem querer observar seus sorrisos e gargalhadas enquanto passava o pão para o próximo cliente. Me vinha a idéia de que poderia ser mais livre, feliz. Mesmo quando fechava meus olhos não parava de imaginar o quanto ela merecia toda felicidade do mundo e ninguém a entendia mais que eu. Já se passavam dois anos e eu sabia tanto sobre aquela senhora, a admirava tanto e todos os dias sonhava com a felicidade sempre ao lado dela, mesmo que em silêncio, uma felicidade qualquer preciosa para que ela pudesse se alegrar além do trabalho, dos amigos e da vida que mudara desde que voltou do Pará. Foi quando ela me olhou nos olhos, enquanto arrumava o carrinho para passar mais um dia servindo as pessoas e disse: –Mais um dia para espalhar a felicidade de ser sua mãe e ter uma razão para viver!